JESUS E SEUS ASPECTOS HUMANOS
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PERGUNTA:- Através da leitura de certa biografia de Jesus, tivemos conhecimento de que ele era realmente um enfermo, porque suava sangue pelos poros. Que dizeis?
RAMATÍS:- Não ignoramos os sentenciosos diagnósticos de alguns médicos terrenos, envaidecidos pela ciência acadêmica, e que procuram situar Jesus na terminologia patogênica de “hematidrose”, porque ele exsudava suores impregnados de sangue. (“E veio-lhe um suor, como de gotas de sangue, que corria sobre a terra” (Lucas. XXII, vs. 44). Aliás, a própria medicina, até certo tempo, considerava a sangria excelente terapêutica para os casos de síncope e apoplexia).
Escritores e médicos presunçosos procuram explicar a hiperfunção das glândulas sudoríparas de Jesus num esquema patológico, porque ignoram, em absoluto, que o organismo carnal do Mestre é que lançava mão de recursos de emergência, para subsistir ante a carga espiritual poderosa que lhe atuava além da resistência biológica humana. Ele vivia sob estados febris e excitações incomuns, em dramática luta para manter-se sob o excesso do potencial que lhe descia do céu, procurando a matéria e fluindo pelo seu corpo, como se este foram realmente um poderoso fio-terra vivo.
A sua natureza carnal processava verdadeira descarga fluido magnética através do sistema glandular, cuja exsudação sangüínea jamais poderá ser considerada um ataque específico e mórbido de “hematidrose”. Após este fenômeno, tal qual aconteceu no Horto das Oliveiras, às vésperas do sacrifício no Calvário, o Espírito do Mestre desafogava-se adquirindo certa liberdade sobre o corpo desfalecido, exausto e febril. O Divino Mestre era um cadinho de química transcendental fabulosa, no qual se processavam aas mais avançadas reações dos problemas espirituais. O passado e o futuro não tinham limites de graduação na sua mente poderosa e genial; os conceitos mais insignificantes poderiam se tornar sentenças milenárias sob o toque mágico de sua alma.
Desde moço ele misturava-se com os forasteiros e mercadores provindos do Egito, da Índia, Caldéia, Grécia, África e outros extremos do orbe. Fazia questão de prestar-lhes pequenos favores nos entrepostos das estradas, só para ouvi-los falar de outros povos e outras terras. O jovem nazareno, admirado e querido por todos, graças ao seu aspecto atraente e sua fisionomia sempre serena, como pela sua atenção e cortesia, deliciava-se fascinado, ouvindo as minúcias dos costumes, do folclore, dos sonhos, dos ideais e das realizações de outros povos que viviam além das fronteiras da Judéia. Ágil de memória, tenaz indagador e jamais satisfeito em sua curiosidade sadia e construtiva, Jesus hauria, emocionado, o conteúdo das histórias de outros homens e formava o amálgama do conhecimento psicológico e filosófico do mundo, que mais tarde tanto surpreendeu e ainda surpreende os seus biógrafos.
Quem poderia supor que Jesus, o jovem filho de José, o carpinteiro, um moço de olhos esplendorosos, insaciável nas suas indagações de “sabe tudo”, carregava nos ombros frágeis a cruz das dores e do sofrimento de todos os homens? Quem poderia prever a sua renuncia, o seu sacrifício e heroísmo diante da morte carnal, para transfundir a luz do Cristo Planetário às sombras tristes do orbe terráqueo? Entre todas as mensagens trazidas dos mais longínquos lugares da Terra, era ele o portador, o genial compilador do mais elevado Código Moral de ajuda à humanidade.
Essa assimilação rápida de verdadeira catadupa de conhecimentos os mais exóticos, difíceis e impossíveis ao homem comum, causava espanto aos próprios rabis e intelectuais da época. Em breve, Jesus era conhecido como “um homem de letras e de ciências, que tudo sabia, sem ter sido visto a estudar”! A sua mente, como poderoso catalizador, num ápice de segundo solucionava as equações mais complexas e concluía sensatamente sobre as premissas mais difíceis da psicologia e filosofia humanas. De um punhado de idéias, era como um jardineiro genial, que se um buquê de flores conseguisse descrever o aspecto formoso e o perfume encantador de todo o jardim policrômico!
Jamais Jesus precisou seguir os mesmos métodos didáticos dos homens terrenos, pois sua alma, como divina esponja sidéria, abrangia a síntese da vida terrena em toda sua força e manifestação educativa. Sabendo e podendo acumular em si mesmo o “quantum” da vida “psicofísica” que o cercava nos dois planos, o oculto e o material, logo se desenvolveu nele a força e a capacidade para ser o guia inconfundível dos homens ainda cegos pela sede de ouro, violência e ardor das paixões! Por isso, logo afirmou com segurança e o fez com êxito: “Eu dou o Caminho, a Verdade e a Vida”, e “Quem não for por mim, não irá ao Pai que está nos céus!”
Jesus, em verdade, anjo e sábio, formava o mais avançado binômio sidério no mundo material; não existe, jamais existiu filósofo, líder religioso ou Instrutor Espiritual sobre a Terra, que tenha vivido em si mesmo uma realização tão integral como Ele a viveu. Ninguém poderá igualá-lo em fé, coragem, renúncia e amor, pois além do seu desprendimento aos bens do mundo, dominou completamente as paixões humanas.
O Cristo Jesus, portanto, ontem, hoje e amanhã, será sempre o Mestre insuperável; porém, o homem sadio e perfeito, não o enfermo classificado pela patologia médica ou o espírito sob o rigor da retificação cármica!
PERGUNTA:- Certos estudiosos da vida de Jesus chegam a afirmar que Ele era analfabeto, motivo por que nada deixou escrito nem se sabe se Ele escreveu algo. Há qualquer fundamento nessa afirmação?
RAMATÍS:- Se até Pedro, que era um rude pescador, sabia ler e escrever, como não o saberia Jesus? O Mestre era escorreito na linguagem e, quando escrevia, estereotipava na precisão dos caracteres gráficos a exatidão do seu pensamento e a poesia do seu sentimento! Exato, lógico e parcimonioso na sua grafia, não empregava uma vírgula além do necessário! Se um grafólogo moderno examinasse os seus escritos, teria descoberto o homem perfeito, em que a retidão, a sinceridade, o espírito de justiça e o amor absoluto se mostrariam harmonizados na tessitura das frases límpidas de atavismos ou artifícios supérfluos.
Agrafia de Jesus era um tanto nervosa, mas revelando altíssima sensibilidade e sem perda do domínio mental; os caracteres claríssimos, distintos e alinhavados em perfeito equilíbrio. Tanto no falar como no escrever, Jesus era avesso à verborragia, à logomaquia peculiar dos pseudos sábios ou políticos terrícolas, que tecem exaustivos circunlóquios para expor, mas se perdem pela dramaticidade das idéias mais prosaicas. Jesus escrevia pouquíssimo, e por uma razão simples: sabia dizer em meia dúzia de vocábulos aquilo que a complicação do pensamento humano só o pode fazer esgotando páginas extensas. Reto no pensar, no falar e no escrever, um ponto tirado à sua escrita lembrava uma parede afastada do seu prumo. Basta observarmos a precisão do Sermão da Montanha, a composição do “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, ou “Buscai e achareis”, para se verificar que tais conceitos evangélicos dispensam qualquer novo acréscimo de adjetivos ou ornamentos para sua maior valiosidade, assim como jamais podem dispensar uma letra de sua estrutura vocabular.
PERGUNTA:- Há alguma prova de que Jesus soubesse escrever?
RAMATÍS:- É justamente num dos momentos mais importante, lembrados em sua mensagem evangélica, que se observa Jesus a escrever. Diante da mulher adúltera, sua divina mão traçou na areia as palavras de censura, reveladora das mazelas daqueles escribas e fariseus que queriam apedrejá-la (João, VIII VS. 3, 11): “O que de nós outros está sem pecado, seja o primeiro que a apedreje”. Silenciosamente, enquanto alguns dos mais ousados perseguidores da adúltera fizeram mensão de atirar-lhe pedras, o Mestre apanhou de uma vara frágil e traçou no solo as palavras “trapaceiro”, “hipócrita” e “perjuro”, o que fez recuar a turba de julgadores.
Jesus viva o que pensava e pensava que vivia, por isso não precisou deixar compêndios doutrinários. Antevendo o sofisma e a astúcia do homem – inescrupuloso quando procura garantir os seus exclusivos interesses – o Mestre preferiu deixar que outros escrevessem para a posteridade.
Antes a confusão sobre o que ele possivelmente teria dito, em vez da confusão sobre o que teria escrito. Qualquer testemunho escrito que tivesse deixado serviria de pretexto para justificar a paternidade de outros milhares de mistificações espalhadas sob o seu augusto nome.
PERGUNTA:- No encerramento deste capítulo sobre os aspectos humanos de Jesus, poderíeis dar-nos uma imagem mais nítida de sua juventude?
RAMATÍS:- Embora jovem, Jesus já tinha o aspecto grave e austero próprio do homem idoso; mas era de porte imponente e seus olhos serenos, penetrantes e profundos, malgrado refletissem a melancolia que o dominava desde a infância, eram plenos de uma ternura quase feminina. Atingira os dezenove anos e já sofria imensamente ao verificar que entre os seus próprios familiares e conterrâneos, não era compreendido no seu Ideal messiânico, comprovando-se, mais uma vez, o velho ditado de que “ninguém é profeta nem faz milagres em sua terra!” Tomado por incessante ebulição interior, e devotado somente às coisas definitivas, como os bens do espírito, era um moço indiferente aos anseios das hebréias formosas que desejavam desposá-lo.
Tentara diversos empregos, os mais variados, tanto em Nazaré como em Jerusalém, no intento de cooperar com o orçamento de sua modesta família; porém, não conseguia ajustar o seu espírito cósmico nas tricas do trabalho humano, nem suportava a imobilidade de concentrar-se exclusivamente num objeto que, de início, já reconhecia fugaz e transitório. Não era defeito de um jovem ocioso e avesso ao labor comum e às obrigações de todo se humano; mas a impossibilidade de controlar e enfeixar a força fabulosa que lhe descia sobre o cérebro, exigindo-lhe a expansividade das idéias e o desafogo da alma!
Embora não estivesse plenamente convicto de ser o “Salvador” apregoado pelos profetas e esperado pelo povo de Israel, nem se supondo o Messias esperado, estava certo de que sua vida seria consumida no fogo do sacrifício e acima das ilusões do mundo terreno! Não se considerava o missionário descido dos céus para redimir os homens; mas desde jovem vivia de tal modo que os homens poderiam supô-lo perfeitamente o tão desejado Messias em desenvolvimento na face da Terra, para glória e libertação do povo de Deus!
A família consangüínea era para Jesus apenas um ensejo disciplinar, pois o seu amor ultrapassava qualquer limite egocêntrico e afetivo da parentela humana, para se derramar incondicionalmente por todas as demais criaturas. O lar fora-lhe dádiva generosa de Jeová, o repouso e o oásis benfeitor no deserto da vida física; mas não poderia cingir-se a um amor exclusivo e aos interesses pessoais da família. Seu pai, seus irmãos eram um reduto simpático e afetivo; amava-os sinceramente, mas em sua lealdade espiritual e sem poder trair sua índole angélica, a humanidade era o seu único amor!
PERGUNTA:- Finalmente, qual era a disposição emotiva do jovem Jesus para com os demais moços de sua época?
RAMATÍS:- Jesus quedava-se, por vezes, recostado na coluna do pórtico da Sinagoga e punha-se a examinar as fisionomias, os gestos e as expansividades ou faceirices dos seus conterrâneos metidos nos trajes domingueiros, como um bando álacre de criaturas felizes. Mas, senhor de maravilhoso dom de empatia, ou seja, sentia as emoções, gostos e tendências e então ele avaliava os sonhos, as angústias, as esperanças e os ideais dos seus contemporâneos. Via nos jovens despreocupados a figura batida e cansada do futuro velho, cujas rugas, como linhas gráficas, marcariam a estatística do sofrimento da vida material. Era a tortura e o desengano dos sonhos desfeitos da mocidade; a exaustão da existência física, na qual o espírito abate-se do seu vôo feliz, para situar-se nos grilhões superexcitantes da carne! A chama ardente que via nos olhos dos moços, mais tarde se apagaria soprada pelos ventos das desilusões, infidelidade e dores, que formavam o cortejo e a cota de sacrifício onerosa para o espírito habitar o mundo carnal.
Quando os olhares cobiçosos femininos lhe caiam sobre o rosto sereno e de encanto ascético, ele os devassava a fundo, descobrindo-lhes as ansiedades, mas identificando-lhes também os desígnios e as desilusões no futuro, quando dos pesados encargos de família. Jesus, o “belo nazareno”, como o conheciam , vivia cercado de jovens casadoiras, mas em face de sua impossibilidade de devotar-se afetivamente a um só ente e da lealdade fraterna para com todos os seres, não podia alimentar qualquer responsabilidade conjugal. Os desenganos sucediam-se amiúde nos corações femininos e as jovens hebréias não podiam compreender por que o jovem filho de José, o carpinteiro, não acendia no seu coração o desejo ou a paixão humana de escravizar-se a uma só criatura, ou mesmo a uma só família.