domingo, 6 de março de 2011

DÉCIMA NONA PARTE O SUBLIME PEREGRINO

 JESUS E SEUS ASPECTOS HUMANOS

Continuaçã....



PERGUNTA:- Através da leitura de certa biografia de Jesus, tivemos conhecimento de que ele era realmente um enfermo, porque suava sangue pelos poros. Que dizeis?
RAMATÍS:- Não ignoramos os sentenciosos diagnósticos de alguns médicos terrenos, envaidecidos pela ciência acadêmica, e que procuram situar Jesus na terminologia patogênica de “hematidrose”, porque ele exsudava suores impregnados de sangue. (“E veio-lhe um suor, como de gotas de sangue, que corria sobre a terra” (Lucas. XXII, vs. 44). Aliás, a própria medicina, até certo tempo, considerava a sangria excelente terapêutica para os casos de síncope e apoplexia).
Escritores e médicos presunçosos procuram explicar a hiperfunção das glândulas sudoríparas de Jesus num esquema patológico, porque ignoram, em absoluto, que o organismo carnal do Mestre é que lançava mão de recursos de emergência, para subsistir ante a carga espiritual poderosa que lhe atuava além da resistência biológica humana. Ele vivia sob estados febris e excitações incomuns, em dramática luta para manter-se sob o excesso do potencial que lhe descia do céu, procurando a matéria e fluindo pelo seu corpo, como se este foram realmente um poderoso fio-terra vivo.
A sua natureza carnal processava verdadeira descarga fluido magnética através do sistema glandular, cuja exsudação sangüínea jamais poderá ser considerada um ataque específico e mórbido de “hematidrose”. Após este fenômeno, tal qual aconteceu no Horto das Oliveiras, às vésperas do sacrifício no Calvário, o Espírito do Mestre desafogava-se adquirindo certa liberdade sobre o corpo desfalecido, exausto e febril. O Divino Mestre era um cadinho de química transcendental fabulosa, no qual se processavam aas mais avançadas reações dos problemas espirituais. O passado e o futuro não tinham limites de graduação na sua mente poderosa e genial; os conceitos mais insignificantes poderiam se tornar sentenças milenárias sob o toque mágico de sua alma.
Desde moço ele misturava-se com os forasteiros e mercadores provindos do Egito, da Índia, Caldéia, Grécia, África e outros extremos do orbe. Fazia questão de prestar-lhes pequenos favores nos entrepostos das estradas, só para ouvi-los falar de outros povos e outras terras. O jovem nazareno, admirado e querido por todos, graças ao seu aspecto atraente e sua fisionomia sempre serena, como pela sua atenção e cortesia, deliciava-se fascinado, ouvindo as minúcias dos costumes, do folclore, dos sonhos, dos ideais e das realizações de outros povos que viviam além das fronteiras da Judéia. Ágil de memória, tenaz indagador e jamais satisfeito em sua curiosidade sadia e construtiva, Jesus hauria, emocionado, o conteúdo das histórias de outros homens e formava o amálgama do conhecimento psicológico e filosófico do mundo, que mais tarde tanto surpreendeu e ainda surpreende os seus biógrafos.
Quem poderia supor que Jesus, o jovem filho de José, o carpinteiro, um moço de olhos esplendorosos, insaciável nas suas indagações de “sabe tudo”, carregava nos ombros frágeis a cruz das dores e do sofrimento de todos os homens? Quem poderia prever a sua renuncia, o seu sacrifício e heroísmo diante da morte carnal, para transfundir a luz do Cristo Planetário às sombras tristes do orbe terráqueo? Entre todas as mensagens trazidas dos mais longínquos lugares da Terra, era ele o portador, o genial compilador do mais elevado Código Moral de ajuda à humanidade.
Essa assimilação rápida de verdadeira catadupa de conhecimentos os mais exóticos, difíceis e impossíveis ao homem comum, causava espanto aos próprios rabis e intelectuais da época. Em breve, Jesus era conhecido como “um homem de letras e de ciências, que tudo sabia, sem ter sido visto a estudar”! A sua mente, como poderoso catalizador, num ápice de segundo solucionava as equações mais complexas e concluía sensatamente sobre as premissas mais difíceis da psicologia e filosofia humanas. De um punhado de idéias, era como um jardineiro genial, que se um buquê de flores conseguisse descrever o aspecto formoso e o perfume encantador de todo o jardim policrômico!
Jamais Jesus precisou seguir os mesmos métodos didáticos dos homens terrenos, pois sua alma, como divina esponja sidéria, abrangia a síntese da vida terrena em toda sua força e manifestação educativa. Sabendo e podendo acumular em si mesmo o “quantum” da vida “psicofísica” que o cercava nos dois planos, o oculto e o material, logo se desenvolveu nele a força e a capacidade para ser o guia inconfundível dos homens ainda cegos pela sede de ouro, violência e ardor das paixões! Por isso, logo afirmou com segurança e o fez com êxito: “Eu dou o Caminho, a Verdade e a Vida”, e “Quem não for por mim, não irá ao Pai que está nos céus!”
Jesus, em verdade, anjo e sábio, formava o mais avançado binômio sidério no mundo material; não existe, jamais existiu filósofo, líder religioso ou Instrutor Espiritual sobre a Terra, que tenha vivido em si mesmo uma realização tão integral como Ele a viveu. Ninguém poderá igualá-lo em fé, coragem, renúncia e amor, pois além do seu desprendimento aos bens do mundo, dominou completamente as paixões humanas.
O Cristo Jesus, portanto, ontem, hoje e amanhã, será sempre o Mestre insuperável; porém, o homem sadio e perfeito, não o enfermo classificado pela patologia médica ou o espírito sob o rigor da retificação cármica!

PERGUNTA:- Certos estudiosos da vida de Jesus chegam a afirmar que Ele era analfabeto, motivo por que nada deixou escrito nem se sabe se Ele escreveu algo. Há qualquer fundamento nessa afirmação?
RAMATÍS:- Se até Pedro, que era um rude pescador, sabia ler e escrever, como não o saberia Jesus? O Mestre era escorreito na linguagem e, quando escrevia, estereotipava na precisão dos caracteres gráficos a exatidão do seu pensamento e a poesia do seu sentimento! Exato, lógico e parcimonioso na sua grafia, não empregava uma vírgula além do necessário! Se um grafólogo moderno examinasse os seus escritos, teria descoberto o homem perfeito, em que a retidão, a sinceridade, o espírito de justiça e o amor absoluto se mostrariam harmonizados na tessitura das frases límpidas de atavismos ou artifícios supérfluos.
Agrafia de Jesus era um tanto nervosa, mas revelando altíssima sensibilidade e sem perda do domínio mental; os caracteres claríssimos, distintos e alinhavados em perfeito equilíbrio. Tanto no falar como no escrever, Jesus era avesso à verborragia, à logomaquia peculiar dos pseudos sábios ou políticos terrícolas, que tecem exaustivos circunlóquios para expor, mas se perdem pela dramaticidade das idéias mais prosaicas. Jesus escrevia pouquíssimo, e por uma razão simples: sabia dizer em meia dúzia de vocábulos aquilo que a complicação do pensamento humano só o pode fazer esgotando páginas extensas. Reto no pensar, no falar e no escrever, um ponto tirado à sua escrita lembrava uma parede afastada do seu prumo. Basta observarmos a precisão do Sermão da Montanha, a composição do “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, ou “Buscai e achareis”, para se verificar que tais conceitos evangélicos dispensam qualquer novo acréscimo de adjetivos ou ornamentos para sua maior valiosidade, assim como jamais podem dispensar uma letra de sua estrutura vocabular.

PERGUNTA:- Há alguma prova de que Jesus soubesse escrever?
RAMATÍS:- É justamente num dos momentos mais importante, lembrados em sua mensagem evangélica, que se observa Jesus a escrever. Diante da mulher adúltera, sua divina mão traçou na areia as palavras de censura, reveladora das mazelas daqueles escribas e fariseus que queriam apedrejá-la (João, VIII VS. 3, 11): “O que de nós outros está sem pecado, seja o primeiro que a apedreje”. Silenciosamente, enquanto alguns dos mais ousados perseguidores da adúltera fizeram mensão de atirar-lhe pedras, o Mestre apanhou de uma vara frágil e traçou no solo as palavras “trapaceiro”, “hipócrita” e “perjuro”, o que fez recuar a turba de julgadores.
Jesus viva o que pensava e pensava que vivia, por isso não precisou deixar compêndios doutrinários. Antevendo o sofisma e a astúcia do homem – inescrupuloso quando procura garantir os seus exclusivos interesses – o Mestre preferiu deixar que outros escrevessem para a posteridade.
Antes a confusão sobre o que ele possivelmente teria dito, em vez da confusão sobre o que teria escrito. Qualquer testemunho escrito que tivesse deixado serviria de pretexto para justificar a paternidade de outros milhares de mistificações espalhadas sob o seu augusto nome.

PERGUNTA:- No encerramento deste capítulo sobre os aspectos humanos de Jesus, poderíeis dar-nos uma imagem mais nítida de sua juventude?
RAMATÍS:- Embora jovem, Jesus já tinha o aspecto grave e austero próprio do homem idoso; mas era de porte imponente e seus olhos serenos, penetrantes e profundos, malgrado refletissem a melancolia que o dominava desde a infância, eram plenos de uma ternura quase feminina. Atingira os dezenove anos e já sofria imensamente ao verificar que entre os seus próprios familiares e conterrâneos, não era compreendido no seu Ideal messiânico, comprovando-se, mais uma vez, o velho ditado de que “ninguém é profeta nem faz milagres em sua terra!” Tomado por incessante ebulição interior, e devotado somente às coisas definitivas, como os bens do espírito, era um moço indiferente aos anseios das hebréias formosas que desejavam desposá-lo.
Tentara diversos empregos, os mais variados, tanto em Nazaré como em Jerusalém, no intento de cooperar com o orçamento de sua modesta família; porém, não conseguia ajustar o seu espírito cósmico nas tricas do trabalho humano, nem suportava a imobilidade de concentrar-se exclusivamente num objeto que, de início, já reconhecia fugaz e transitório. Não era defeito de um jovem ocioso e avesso ao labor comum e às obrigações de todo se humano; mas a impossibilidade de controlar e enfeixar a força fabulosa que lhe descia sobre o cérebro, exigindo-lhe a expansividade das idéias e o desafogo da alma!
Embora não estivesse plenamente convicto de ser o “Salvador” apregoado pelos profetas e esperado pelo povo de Israel, nem se supondo o Messias esperado, estava certo de que sua vida seria consumida no fogo do sacrifício e acima das ilusões do mundo terreno! Não se considerava o missionário descido dos céus para redimir os homens; mas desde jovem vivia de tal modo que os homens poderiam supô-lo perfeitamente o tão desejado Messias em desenvolvimento na face da Terra, para glória e libertação do povo de Deus!
A família consangüínea era para Jesus apenas um ensejo disciplinar, pois o seu amor ultrapassava qualquer limite egocêntrico e afetivo da parentela humana, para se derramar incondicionalmente por todas as demais criaturas. O lar fora-lhe dádiva generosa de Jeová, o repouso e o oásis benfeitor no deserto da vida física; mas não poderia cingir-se a um amor exclusivo e aos interesses pessoais da família. Seu pai, seus irmãos eram um reduto simpático e afetivo; amava-os sinceramente, mas em sua lealdade espiritual e sem poder trair sua índole angélica, a humanidade era o seu único amor!

PERGUNTA:- Finalmente, qual era a disposição emotiva do jovem Jesus para com os demais moços de sua época?
RAMATÍS:- Jesus quedava-se, por vezes, recostado na coluna do pórtico da Sinagoga e punha-se a examinar as fisionomias, os gestos e as expansividades ou faceirices dos seus conterrâneos metidos nos trajes domingueiros, como um bando álacre de criaturas felizes. Mas, senhor de maravilhoso dom de empatia, ou seja, sentia as emoções, gostos e tendências e então ele avaliava os sonhos, as angústias, as esperanças e os ideais dos seus contemporâneos. Via nos jovens despreocupados a figura batida e cansada do futuro velho, cujas rugas, como linhas gráficas, marcariam a estatística do sofrimento da vida material. Era a tortura e o desengano dos sonhos desfeitos da mocidade; a exaustão da existência física, na qual o espírito abate-se do seu vôo feliz, para situar-se nos grilhões superexcitantes da carne! A chama ardente que via nos olhos dos moços, mais tarde se apagaria soprada pelos ventos das desilusões, infidelidade e dores, que formavam o cortejo e a cota de sacrifício onerosa para o espírito habitar o mundo carnal.
Quando os olhares cobiçosos femininos lhe caiam sobre o rosto sereno e de encanto ascético, ele os devassava a fundo, descobrindo-lhes as ansiedades, mas identificando-lhes também os desígnios e as desilusões no futuro, quando dos pesados encargos de família. Jesus, o “belo nazareno”, como o conheciam , vivia cercado de jovens casadoiras, mas em face de sua impossibilidade de devotar-se afetivamente a um só ente e da lealdade fraterna para com todos os seres, não podia alimentar qualquer responsabilidade conjugal. Os desenganos sucediam-se amiúde nos corações femininos e as jovens hebréias não podiam compreender por que o jovem filho de José, o carpinteiro, não acendia no seu coração o desejo ou a paixão humana de escravizar-se a uma só criatura, ou mesmo a uma só família.

JESUS E SEUS ASPECTOS HUMANOS

DÉCIMA NONA PARTE
O SUBLIME PEREGRINO
JESUS E SEUS ASPECTOS HUMANOS

PERGUNTA:- Em vista de existirem tantas efígies de Jesus, em pinturas e esculturas, segundo a inspiração de cada artista, isto nos impede de conhecermos asa características exatas ou a expressão da fisionomia do Mestre e do seu porte físico. E visto que o conhecestes pessoalmente, podeis informar-nos a tal respeito?
RAMATÍS:- Jesus era um homem de estatura alta, porte majestoso, de um perfil clássico, hebraico, mas singularmente, também possuía alguns traços imponentes de um fidalgo romano. Delicado NASA formas físicas, porém exsudava extraordinária energia à flor da pele, pois naquele organismo vibrátil as forças vivas da Natureza, aliadas a um potencial energético incomum do mundo etéreo astral, denunciavam profunda atividade mental. A testa era ampla e suavemente alongada; seu rosto triangular, mas cheio de carne, sem rugas ou mancha até aos dias da crucificação. Os lábios, bem feitos, com suave predominância do inferior, nem eram excessivamente carnudos, próprios dos homens sensuais, nem finíssimos e laminados, que lembram a avareza e a dissimulação. O nariz era reto e delicado, sem qualquer curvatura inferior que trai o homem de mau instinto; a barba espessa, um pouco mais escura do que os cabelos, caprichosamente separada ao meio e curta, tornando Jesus o perfil de um dos mais belos homens do mundo.
O psicanalista moderno teria identificado em Jesus a figura do homem ideal, de fisionomia atraente e de uma expressão ao mesmo tempo meiga e enérgica, suave e séria, cujos lábios angélicos bem recortados, mal escondiam o potencial de um Gênio! Seus olhos eram claros, afetuosos e sumamente ternos, mas sempre dominados por uma expressão grave e melancólica; emitiam fulgores, às vezes inesperados, quando Ele parecia ligar-se subitamente às potências superiores. Então se tornavam quase febris, de um brilho estuante de energia moral. Sem dúvida, era o olhar do anjo verberando a maldade e o cinismo dos espíritos satânicos, que tentavam subverter a vida humana, atuando do mundo oculto. No entanto, malgrado esse tom energético de admoestação espiritual severa, jamais desaparecia do seu semblante a expressão de mansuetude e de imensa piedade pelos homens!
A sabedoria e o amor refletiam-se nele na mais pura harmonia. Diante do insulto, do sarcasmo ou da crueldade, seus olhos revelavam uma divina paciência e serenidade. O sábio cedia seu lugar ao anjo apiedado da ignorância humana. Quantas vezes o motejador que ironizava a aparente ingenuidade da filosofia de Jesus não conseguia suportar-lhe o olhar de compaixão, repleto de ternura e piedade para com aquele que não podia compreendê-lo! Era uma doçura queimante na consciência dos sarcásticos, pois sentiam a descobertos, no recôndito da sua alma, todos os seus pecados.
As criaturas curadas por Jesus, diziam que o fulgor de seus olhos penetrava-lhes a medula, qual energia crepitante, transmitindo-lhes misterioso potencial de forças desconhecidas e fazendo eclodir em seu corpo a vitalidade adormecida. Os malfeitores e delinqüentes não escondiam o seu terror diante desses mesmos fulgores veementes, que lhes punham a descoberto na alma o cortejo de vícios, pecados e hipocrisias. Raros homens não se prostravam de joelhos, diante de Jesus, clamando perdão para os seus erros, quando, esmagados pelos pecados, erguiam-se aterrorizados ante a voz imperiosa que lhes dizia:- “Vai e não peques mais”.
No seio da massa heterogênea diante do Mestre, o curioso estava junto ao discípulo atento; e o cínico ensaiava os seus motejos para perturbar o discurso.
Mas o olhar de Jesus, quanto aos que ali estavam com más intenções, penetrava-lhes a alma, devassando-lhes os turvos pensamentos à luz de sua divina compaixão.  Então, os perturbadores assalariados pelo Sinédrio, retiravam-se apreensivos ou mantinham-se em silêncio, baixando a cabeça ao defrontarem o fulgor daquele olhar tão sereno, mas severamente interrogativo e flamejante quando atingia uma consciência subvertida!

PERGUNTA:- Os nosso pintores geralmente apresentam Jesus com um fisionomia essencialmente feminina, olhos grandes e rosto redondo, que nada se parece com o tipo semítico de que ele descendia. Porventura seria a predominância dos traços herdados de Maria, que a tradição diz ter sido uma mulher de rara formosura?

RAMATÍS:- Imaginai um edifício moderno, com o seu arcabouço esquio, mas sólido, porque as suas veias são o aço incursável; suas linhas são severas e nítidas; os contornos singelos, mas impressionantes. No entanto, nesse todo de simplicidade, a decoração e a iluminação revelam aspectos delicadíssimos, em que as cores translúcidas e os suaves matizes completam a beleza do conjunto. À noite, todo iluminado, a sua figura recortada no espaço faz realçar a sua beleza poética por entre as luzes refulgentes e policrômicas.
Jesus herdara do pai asa linhas firmes e energéticas, que lhe davam o aspecto viril; no entanto, através daquela energia e masculinidade, transparecia a beleza radiosa de Maria, cujas feições delicadas, semblante sereno e profundamente místico, justificavam a fama de ser a mais linda esposa da Galiléia! A sabedoria do Alto aliara a energia e a sensatez de José à bondade e à beleza de Maria, cujo fascínio radioso de encantadora boneca de porcelana viva, transparecia na figura atraente do Mestre, acendendo a chama do amor nos corações de muitas mulheres desavisadas da missão grandiosa do sublime nazareno.
O Mestre3 Jesus, portanto, além da simpatia que irradiava, era um moço extremamente belo, cujo andar denunciava a sua majestade angélica, pois havia em seu todo, uma faceirice dos céus! Tudo nele enternecia; a sua palavra era uma esperança para quem o ouvia, pois a graça e a ternura feminina tinham-se conjugado à virilidade masculina. A beleza do anjo confundia-se com a grandeza do sábio!

PERGUNTA:- Os cabelos de Jesus eram louros ou escuros?
RAMATÍS:- Ele possuía cabelos de um louro amendoado, formando as tradicionais volutas ou cachos que lhe caíam pelos ombros à moda nazareno. Nas tardes de céu límpido, em que o vento deslizava suavemente encrespando o dorso dos lagos da Galiléia, Jesus costumava sentar-se nos barcos ali ancorados, a fim de descansar. Quando o poente se tingia de púrpura e de lilás, e os tons esmeraldinos se confundiam com os raios dourados do sol, então seus cabelos fulgiam nesse fundo paradisíaco, cuja cor de amêndoas parecia chamejante, emitindo reflexos fulvos e punha em destaque a beleza angélica de seus traços fisionômicos.
Após a exaustão da puxada das redes e da colheita do peixe, os rudes pescadores exultavam esperançosos de um mundo feliz e acercavam-se de Jesus, para ouvirem-no em suas prédicas consoladoras. Quem era aquele homem tão formoso e de sabedoria tão incomum, cuja eloqüência hipnotizava os seus ouvintes e os fazia sentirem-se num reino de Bondade e de Amor, onde os pobres e os sofredores viveriam eternamente felizes adorando o seu Criador?

PEERGUNTA:- Em face da tradição religiosa, fica-se com a impressão de que o Mestre Jesus tinha uma vida excêntrica, absolutamente introspectiva sendo avesso a qualquer emotividade do mundo. Estaremos equivocados a esse respeito?

RAMATÍS:- Jesus era dotado de um temperamento sereno e equilibrado no contato com as criaturas humanas, pois embora vivesse sob profunda tensão espiritual interior, em face do potencial angélico que lhe oprimia a carne, sabia contentar-se e ninguém pôde-lhe apontar gestos e atitudes de cólera por sentir-se ofendido ou desatendido. Era um homem excepcional; porém, sujeito a todas aas necessidades fisiológicas do corpo físico, mas de uma vida regrada inconfundível.
Ele não se negava às relações sociais e comuns com o mundo exterior, nem verberava a alegria e o divertimento humanos. Participava gentilmente das festividades e tradições religiosas do seu povo, mas o fazia sem os exageros entusiásticos das almas infantis. Expressava o suave sorriso de Maria nos júbilos domésticos ou nos reencontros afetivos, mas jamais se excedia na gargalhada descontrolada ou no choro compungido do sentimentalismo humano. Ante asa cenas humorísticas, mas cheias de simplicidade das festas regionais de sua terra natal, sua fisionomia era tomada de um sorriso tolerante e, por vezes, travesso; mas diante das cenas cruéis, como as das crianças escravizadas, cegas e vítimas de queimaduras nos trabalhos escravos das fundições de Tiro, a piedade fazia-lhe estremecer o corpo delicado, ou então se angustiava, batido pelo vendaval agressivo da maldade humana. O suor umedecia-lhe a fronte e a palidez tomava-lhe as faces, ao contemplar o panorama aflitivo das misérias e das atrocidades do mundo!

PERGUNTA:- Alguns investigadores da vida de Jesus dizem que ela era lago enfermo, mesmo sujeito a alucinações. E que adotava rigorosa dieta alimentar. Há fundamento nessa afirmativa?
RAMATÍS:- Embora não tenham fundamento os exagerados jejuns de quarenta dias no deserto, que também lhe foram atribuídos, ele realmente socorreu-se, algumas vezes, do jejum absoluto, como delicadíssima terapêutica para conservar seu espírito no comando da carne. Não se tratava de nenhuma prática iniciática ou obrigação religiosa; era apenas um recurso sublimado e admissível em entidade tão excelsa como Jesus, cuja consciência angélica ultrapassava os limites da suportação comum de um organismo humano! O jejum desafoga a circulação sangüínea dos tóxicos produzidos nas trocas químico-físicas da nutrição e assimilação; debilita asa forças agressivas o instinto inferior, aquieta a natureza animal, clareia a mente e o sistema cérebro-espinhal passa a ser regado por um sangue mais límpido.
Durante o repouso digestivo, a natureza renova suas energias, restaura os órgãos enfraquecidos, ativa o processo drenativo das vias emuntórias, por onde se expulsam todos os tóxicos e substâncias prejudiciais ao organismo. É obvio que o jejum enfraquece, devido à desnutrição, mas compensa porque reduz o jugo da carne e desafoga o espírito, permitindo-lhe reflexões mais lúcidas e intuições mais certas.
Durante o enfraquecimento orgânico pelo sofrimento, ou jejum, as faculdades psíquicas se aceleram e a lucidez espiritual se torna mais nítida, conforme se verifica em muitas criaturas prestes a desencarnar, pois recuperam sua clareza mental e rememoram os mais longínquos fatos de sua existência humana, desde a infância. A queda das energias físicas costuma proporcionar maior liberdade à consciência do espírito; há uma tendência inata de fuga da alma, para fugir do seu corpo físico, assim que ele se enfraquece. Diz o vulgo que as criaturas, no auge da febre, costumam “variar”, isto é, são tomadas de alucinações, chegando mesmo a identificar conhecidos que já desencarnaram, assim como vêem figuras grotescas, insetos ou coisas estranhas, que não são do mundo material.
Assim, o jejum também era para Jesus o recurso benéfico com que contemporizava a excessiva tensão do seu próprio Espírito na carne. Sua fabulosa atividade mental provocava excessivas saturações magnéticas na área cerebral; seu corpo embora sensibilíssimo e hígido em todo o seu sistema orgânico era acanhadíssimo veículo para atender às exigências de sua extensa consciência sideral. Os neurônios e centros sensoriais permaneciam continuamente num estado de alta tensão, assim como a lâmpada modesta ameaça romper-se pela energia demasiadamente vigorosa que lhe vem da usina.
O Anjo é a entidade mais aproximada dos atributos de Deus, como sejam: a Sabedoria, o Poder, a Vontade e o Amor. Em conseqüência, possui qualidades superiores às do tipo espiritual ainda reencarnável na Terra. O organismo físico não lhe oferecia os recursos necessários para permitir-lhe uma relação perfeita entre o mundo angélico e o material. Mesmo que ele não houvesse sido crucificado aos 33 anos, não teria sobrevivido por muito tempo, pois o seu corpo carnal já se mostrava exaurido e incapacitado para atender-lhe o ato grau de suas exigências mentais.
O Mestre Jesus foi, indiscutivelmente, a entidade da mais alta estirpe sideral que já desceu ao vosso orbe. A sua consciência ampla e poderosa lutava assombrosamente para firmar-se no comando de um cérebro humano. Era um divino balão cativo preso por delicadíssimos fios de seda. Se espírito super ativo e em permanente vigília, envidava heróicos esforços para abafar asa energias estuantes da vida animal, que se multiplicavam na esfera instintiva e tentavam dominá-lo tanto quanto ele as repelia. Inegavelmente, tratava-se de uma consciência angélica de sereno conteúdo espiritual, que deveria proporcionar euforia à carne, mas a sua força, sabedoria e poder, extravasavam pela fronteiras da consciência humana.
Aliás, a tradição religiosa terrena sempre pintou o anjo como a entidade resplandescente, de fulgores ofuscantes. Satanás, como símbolo do instinto animal, dobra os joelhos diante de Miguel Arcanjo, quando é chicoteado pelo excesso de luz que o enfrenta. Embora o Sol seja um potencial criador e benéfico, debaixo dos seus raios ardentes até o “iceberg” se aniquila. Muitos homens célebres do vosso mundo, como poetas, escritores, músicos, escultores e filósofos, têm apresentado fases anormais, mostrando-se perturbados antes a tensão muito acentuada do seu espírito sobre o sistema Nero cerebral. (Vide a obra “Doentes Célebres”, de Gastão Pereira da Silva, da coleção do livro de bolso, etiqueta “Estrela de Ouro em que o autor faz um estudo minucioso sobre diversos homens famosos, anotando-lhes o estado de espírito perturbador, como no caso de Allan Poe, Hoffmann, Dostoievsky, Paganini, Van Gogh, Tchaicovsky, Nietzsche e outros. Aliás, tanto a notícia trágica, como a surpresa e o júbilo da fortuna inesperada podem afetar o cérebro humano ante a carga sem controle que o espírito lança sobre a massa cinzenta.
O dinamismo espiritual fabuloso do Espírito de Jesus, atuando incessantemente sobre a fragilidade do seu cérebro físico, quase o levava à clássica “surmenage”, além de exigir-lhe os mais dificultosos esforços para manter=se no mecanismo vivo da carne. O homem moderno hoje reconquista ou compensa as suas funções mentais e o gasto excessivo de energias no processo fatigante das elucubrações mentais cerebrais, socorrendo-se das medicações energéticas e vitaminadas, principalmente à base de fósforo ou ácido glutâmico. Porém, Jesus, após a exaustão cerebral, sob a tensão mental incomum do seu Espírito, só obtinha equilíbrio e socorro orgânico através da prece e dos fluidos energéticos, que lhe eram ministrados do mundo oculto pelos seus fiéis e devotados amigos espirituais!
A fadiga transparecia-lhe cada vez mais funda no semblante angélico, à medida que se sucediam os anos de sua vida física; por vezes, descoloriam-se-lhes as faces e o suor alforjava-lhe à fronte, enquanto sob intensa sensibilidade o corpo perdia temperatura e parecia açoitado por um vento gélido. Inúmeras vezes os seus discípulos temeram vê-lo cair sem vida, pois o seu generoso coração arfava perigosamente e o corpo estremecia sob o alto potencial angélico.
No entanto, espírito corajoso e vivendo exclusivamente para o Ideal redentorista do terrícola, Jesus tudo fazia para suportar o fardo da carne e continuar em atividade no cenário da Terra, rogando ao Pai que o mantivesse em condições de ultimar sua obra abençoada! O seu espírito, preso por um fio de linha ao diminuto mundo da carne, parecia mil raios de sol convergindo sobre a lente do cérebro precário e atuando sob vigorosa voltagem.  Que seria do frágil moto elétrico, construído para suportar a carga máxima de 120 volts, caso, de súbito, recebesse o potencial de 13.000 volts, diretamente da usina elétrica?
Anjo exilado na matéria, o Alto então lhe oferecera a encantadora moldura feita de luz, cor e poesia de Nazaré, para amenizar-lhe um pouco a condição aflitiva de permanecer algum tempo segregado na carne, no desempenho generoso e sacrificial a serviço da criatura humana!

CONSIDERAÇÕES SOBRE JESUS E A FAMILIA HUMANA

O SUBLIME PEREGRINO
DÉCIMA OITAVA PARTE

CONSIDERAÇÕES SOBRE JESUS E A FAMILIA HUMANA

         PERGUNTA:- Alguns escritores afirmam que Jesus, embora fosse de admirável composição moral, também não conseguiu furtar-se ao amor do sexo no mundo aonde viera habitar. Que dizeis?
        RAMATÍS:- Se Jesus houvesse casado e constituído um lar, a humanidade só teria lucrado com isso, pois ele então deixaria mais uma lição imorredoura da verdadeira compostura de um chefe de família. E mesmo que também houvesse alimentado um amor menos platônico, nem por isso menosprezaria a sua vida devotada exclusivamente aos outros. Muitas criaturas solteiras e castas vivem tão repletas de inveja, egoísmo, ciúmes e concentradas exclusivamente em si mesmas, que se tornam inúteis e até indesejáveis ao próximo.
Que desdouro seria para Jesus, se ele se tivesse devotado ao amor que une o homem e a mulher, quando deu toda sua vida em holocausto à redenção espiritual da humanidade? Sem dúvida, a sua rara beleza acendeu violentas paixões nos corações de muitas jovens casadoiras ou mulheres à cata de sensações novas, o que exigiu dele enérgica auto vigilância para não sucumbir às tentações da carne e nem constituir o lar terreno do homem comum.
Aliás, diversas vezes Jesus foi caluniado em suas abençoadas peregrinações, cujos detratores o acusavam de fascinar as viúvas ricas para herdar-lhes os bens materiais e atrair as jovens incautas para fins inconfessáveis. Sob o domínio despótico de Roma, algumas hebréias falseavam os seus deveres conjugais, pois preferiam a fartura do conquistador à pobreza honesta de seus conterrâneos. E os espíritos das trevas, que vigiavam Jesus em todos os seus passos armaram-lhe ciladas as mais sedutoras até entre as patrícias romanas. Mas embora ele tenha evitado formar um lar, jamais condenou ou menosprezou o agrupamento da família, porquanto sempre advertiu quanto à legalidade e ao fundamento da Lei do Senhor, que assim recomendava: “Crescei e multiplicai-vos!”
O sangue humano como vínculo transitório da família terrena, tanto algema aas lamas que se odeiam como une aas que se amam no processo cármico de redenção espiritual. Por isso, Jesus aconselhou o homem a libertar-se da escravidão da carne e estender o seu amor fraterno a todos os seres, além das obrigações inadiáveis no seio do lar. Tendo superado as seduções da vida material, e sentindo-se um realizado no recesso da humanidade terrena, chegoua advertir o seguinte: “aqueles que quisessem segui-lo em busca do reino de Deus, teriam de renunciar aos desejos da vida humana; e, se preciso fosse, até abandonar pai e mãe!” E por isso, acentuou textualmente: “Quem ama o pai e a mãe mais do que a mim, não é digno de mim!”
Jesus recomendava amor e espírito de justiça, induzindo à libertação da família no mundo material acima do egocentrismo de casta, em favor de toda a humanidade. Ele procurou demonstrar, que apesar do vínculo sangüíneo e egoísta da parentela humana, o homem não deve limitar o seu afeto somente às criaturas viventes no ambiente de sua família ou simpatia. Muitas vezes, detrás da figura antipática do vizinho ou de algum estranho desagradável, pode se encontrar justamente um espírito nosso amigo de vidas passadas. No entanto, entre os nossos mais íntimos familiares, às vezes estão encarnados espíritos algozes, que nos torturaram outrora e a Lei Cármica os reuniu para a necessária liberação dos laços de culpa ou do perdão recíproco. (Nota do médium:- Em nosso bairro da Água Verde, em Curitiba, conhecemos uma senhora que implicava odiosamente com um menino da vizinhança, e não lhe dava razão, mesmo quando seu filho agia com flagrante injustiça e desonestidade nas arruaças de infância. Á se previa uma tragédia entre os adultos, quando, freqüentando o nosso trabalho mediúnico, essa mesma senhora, após sentidos queixumes de verberações contra o referido menino detestado, ouviu do guia a severa advertência: “O seu amor materno egoísta está lhe fazendo praticar aas maiores injustiças, pois na existência passada o seu atual filho oi um homem leviano, rico e despudorado, que levou a irmã ao prostíbulo e ao desespero. No entanto, surgiu outro homem digno, bom e piedoso, que não só a retirou do lodo, como ainda lhe deu a segurança desejada do casamento e da paz de espírito. Esse outro homem, a quem minha irmã deve a sua salvação e redenção no passado, é justamente o atual filho do vizinho, tão odiado por si e ali situado por efeito da Lei do seu Carma.
O imenso amor de Jesus pela humanidade é que o afastou do compromisso de constituir um lar. Não foi somente sua elevada qualidade espiritual, o motivo dele conservar-se ligado a todos os homens e desprendido de um afeto exclusivo à família humana; mas sim, a piedade, a ternura e a compreensão do sofrimento de todas as criaturas. Em verdade ele não condenou os direitos da família consangüínea, mas advertiu quanto aos perigos do afeto egocêntrico, que se gera no meio do lar, embotando o sentimento do amor as demais criaturas. Por isso ao recomendar a terapêutica do “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, ele mesmo já havia demonstrado esse amor incondicional, que abrange a Família-humanidade!
Isso era um cunho intrínseco de sua alma, pois aos doze anos de idade já respondia dentro do conceito da família universal. Interrompido no seio de uma reunião, por alguém que lhe diz: “Eis que estão lá fora a tua mãe e teus irmãos que te querem falar”, o menino Jesus surpreende a todos, quando assim responde: - “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?“ Em seguida, ergue-se e movendo a mão, num gesto acariciante, que abrange amigos, estranhos, mulheres, velhos, crianças e jovens, conclui a sua própria indagação: - “Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe!”

PERGUNTA:- Mas, Jesus aconselhando o home a abandonar a família e devotar-se a amar os outros ou seja, a humanidade, essa atitude não será uma decorrência, justamente, do fato de ele não ter amado fisicamente e de não haver constituído um lar?
RAMATÍS:- Jesus não constituiu a clássica família humana sem amou fisicamente, porque já era um Espírito liberto do recalques do sexo. Ele não abjurou nem repudiou a parentela humana; apenas evitou os laços de sangue capazes de lhe oprimirem ou limitarem as expansões do seu amor tributado à humanidade inteira.
Assim, as criaturas que o seguissem sob o impulso generoso desse amor incondicional a todos os seres, evidentemente seriam hostilizadas pelos seus próprios familiares, incapacitados para compreenderem tal efusão despida de interesses egoístas. Ante o Mestre Jesus, o casamento não deveria impedir a floração dos sentimentos naturais de cada cônjuge, quanto ao seu proverbial espírito de justiça, tolerância, amor e devotamento ao próximo. O simples fato de duas criaturas unirem seus destinos na formação de um novo lar, não deve ser impedimento destinado a reduzir o amor espiritual ou substituí-lo pelo sentimentalismo egocêntrico do amor consangüíneo. Quando, no futuro, as virtudes superiores da alma dominarem os interesses e o egoísmo humanos, então existirá uma só família, a da humanidade terrena. Os homens terão abandonado o amor egoísta e o consangüíneo, produto da família transitória , para se devotarem definitivamente ao amor de amplitude universal, que consiste em “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
Independente da recomendação de Jesus, quando aconselho o “abandono” de pai e mãe, irmão e irmã, para o seguirem, a verdade é que os membros de cada família humana também não permanecem em definitivo no conjunto doméstico, pois à medida que se desfolha o calendário terrícola, processam-se as separações obrigatórias entre os componentes do mesmo lar.
As crianças, já em tenra idade, precisam ausentar-se para freqüentar a escola; e isso as separa da família durante muitas horas; depois de jovens permanecem longo tempo fora de casa, a fim de obterem o sustento ou conseguirem o diploma acadêmico. Em breve surge o namoro, o noivado, e então se ligam a outras criaturas estranhas ao conjunto da sua família, para segurem novos destinos e conseqüente “abandono” natural entre os dos mesmos laços consangüíneos. Doutra freira, a irascibilidade, avareza, hostilidade, o ciúme, ódio ou egoísmo, chegam a separar os membros da mesma família e a afastá-los em caminhos ou destinos opostos. Filhos, pais, sogros, genros, irmãos e demais parentes, por vezes se incompatibilizam e cortam relações devido a interesses materiais adstritos a heranças, provando a fragilidade do amor de sangue. Paradoxalmente, a família mais unida é justamente aquela cujos membros são tolerantes e amorosos para com todos os seres, pois a bondade e a paciência constituem um traço de união e boa convivência em todos os ambientes. Por conseguinte, os parentes separados por discórdias domésticas mais se uniriam se atendessem ao apelo de Jesus, pois, abandonando o amor exclusivamente ao sangue da família, também desapareceria o amor próprio na fusão de um sentimento universalista.
Jesus não recomendou ao homem o abandono impiedoso de seus familiares, fazendo-os sofrer dificuldades pela sobrevivência cotidiana; porém, advertiu “que não seria digno dele o que amasse mais o pai, a mãe, o irmão e a irmã, do que ao próximo”. Deste modo, o homem precisa renunciar à sua personalidade, ao sentimentalismo, ao amor próprio, à opinião patética da família de sangue, e mesmo opor-se a ela, quando os seus membros o repudiem por esposar idéias e sentimentos crísticos. Foi no campo das idéias e dos sentimentos universalistas que Jesus concentrou sua advertência, ao dizer, “quem amar a mim mais do que à família, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna”, ou seja, amando toda a humanidade, a criatura livra-se das purgações próprias dos contínuos renascimentos das vidas físicas. Então passa a viver apenas nos mundos espirituais superiores, entre as almas afetivas e libertas do conjunto egoísta da família carnal, onde o verdadeiro amor estiola oprimido pelas afeições transitórias do mundo reduzido do lar. Quem ama o próximo como a si mesmo, ama o Cristo; e assim desaparece o amor egoísta de casta, raça e de simpatia ancestral da matéria. Em troca surge o “amor espiritual”, que beneficia todos os membros da mesma parentela, e se exerce acima de quaisquer interesses da vida humana isolada, pois diz respeito à vida integral do Espírito Eterno!

O SUBLIME PEREGRINO DÉCIMA SÉTIMA PARTE

 
Continuação....

PERGUNTA:- Embora já tenhamos sido notificados de algumas distrações do menino Jesus, gostaríamos de saber quais foram os brinquedos e os folguedos que ele mais preferiu durante sua infância.
        RAMATÍS:- O menino Jesus, como espírito de elevada estirpe sideral, aprendia com extrema facilidade qualquer iniciativa do seu povo, enquanto era o mai exímio oleiro da redondeza, conhecido entre as crianças do seu tempo. Destro no fabricar animais e aves de barro, às vezes devotava-se com tal ânimo e perícia criadora a esse arte infantil, que os produtos saídos de suas mãos arrancavam exclamações de espanto e admiração dos próprios adultos!
        Parecem vivos! – diziam os mais entusiastas, tomados de profundo assombro.
Sob seus dedos ágeis e delicados, o barro amorfo despertava como se lhe fora dado um sopro de vida! Jamais os seus contemporâneos percebiam que ali se achava o anjo exilado na carne sublimando as substâncias do mundo material em figuras de contornos poéticos e atraentes. Os pequeninos comparsas rodeavam Jesus, atentos e espantadiços da rapidez com que ele transformava um punhado de barro argiloso na figura esbelta de uma ave ou animal, que só faltavam falar num movimento impulsivo de vida! Depois, eles corriam céleres, para casa, agitando em suas mãos as figuras confeccionadas por Jesus, que então ria, feliz, como um príncipe dadivoso!
        Naquela época a escultura de barro era inferior, feita às pressas e de caráter exclusivamente comercial, somente de enfeite nos lares mais pobres, porquanto as obras de arte de natureza mais fina provinham do Egito, da Índia e de Tiro, a pedido de romanos e hebreus ricos. As mãos do menino Jesus davam um toque de tal beleza e meiguice nos seus produtos esculturais, o que era fruto de sua inspiração angélica ainda incompreensível, que os artesãos mais primorosos não temiam de colocá-los a par das ourivesarias mais finas e de bom gosto.  Durante o seu trabalho de arte na argila, Jesus mostrava-se sério e compenetrado, os lábios contraídos e um vinco de alta inspiração cruzava-lhe a fronte angélica até o término do seu trabalho. Quando se dava por satisfeito e finalizava sua obra, a sua fisionomia se desafogava e seu rosto abria-se numa expressão da mais infantil alegria!
        No entanto, depois desse labor, jamais ele se ligava à sua obra, nem se preocupava com o seu valor ou posse; o que saía de suaas mãos já não lhe pertencia e o dava facilmente ao primeiro que o pedisse! Menino ainda, já revelava a contextura do Mestre, que mais tarde recomendaria: “Não queirais entesourar para vós tesouros na terra; onde a ferrugem e a traça os consomem; e onde os ladrões os desenterram, e roubam. Mas entesourai para vós tesouros no céu, onde não os consome a ferrugem nem a traça, e onde os ladrões não os desenterram nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração”. (Mateus, cap. VI, VS. 19. 20 e 21).
         Mas ele também se entregava às brincadeiras comuns da época, como o jogo de bolas de pano e de barro, que eram atiradas sobre obstáculos de madeira, derrubando-os; as travessuras com cães, cabritos e cordeiros, ou à construção de diques e lagos artificiais, cujas barcas de pesca ele as construía de gravetos e restos de madeira sobejados da carpintaria de José; e os guarnecia de remos feitos de palitos de cedro. As velas dos barquinhos, enfunadas, traíam a contribuição de Maria, com retalhos de linho e algodão de suas costuras. As frotas de galeras romanas então navegavam nas enseadas de água suja, para gáudio da gurizada sempre atenta às iniciativas e surpresas do menino Jesus, cujo espírito enciclopédico jamais encontrava dificuldades para sair-se bem de suas empreitadas infantis. Eram estradas, pontes, rios, lagos e cascatas; ou portos de carga e descarga, barracas coloridas para caravaneiros, cujos camelos e elefantes de barro descansavam à sombra de palmeiras improvisadas e sob os bosques feitos de barbas de arvoredos. Ainda havia jardins suspensos como os da Babilônia, faróis queimando torcidas de cordas untadas de aceite, à noite, para guiar as galeras retardadas que eram puxadas a barbante pelos fiéis peritos sob as ordens de Jesus menino. Enfim, era um mundo feérico, divertido e contagioso, que reunia a gurizada da redondeza; e os próprios adultos davam uma espiada, quando precisavam arrastar os filhos para o repouso noturno. Muitas vezes, Maria sentia-se dominada por estranhas emoções e as lágrimas escorriam-lhe pelas faces, vendo aquele menino como um reizinho venturoso, um deuzinho criador dirigindo o seu mundo rico de novidades e surpresas. Ele era o centro de atração da criançada buliçosa, que entre gritos de alegria e de espanto, movia-se obediente às diretrizes por ele traçadas e no intuito de preservar os brinquedos até o término dos divertimentos. Eram pequenos vassalos, louros como a espiga do milho novo, ruivos e a cabeça metida num fogaréu; ou escuros como ébano, filhos de etíopes emigrados, sardentos, pálidos e corados; sujos e limpos; confortavelmente vestidos ou esfarrapados, ali se confundiam nos limites do mundo elaborado e movimentado pelo genial menino Jesus! Era um clã de meninos, que, pouco a pouco se integrava nas disposições temperamentais e emotivas dele, pois exigia bom comportamento para o ingresso na sua “maçonaria” infantil. Então, reduzia-se a maldade para com os pássaros e os animais; diminuía-se também a traquinagem maliciosa e destruidora. Jesus inventava sempre coisas novas; do barro argiloso e da areia umedecida, compunha castelos e reis, príncipes e fortalezas, que reproduziam as histórias ouvidas de Maria, à noite, do folclore hebraico. Por isso, os próprios meninos ressentidos retornavam breve e submetiam-se à férrea disciplina de cominar o instinto daninho e os impulsos cruéis para não perderem dádivas tão atraentes.

        PERGUNTA:- Quais eram as disposições emotivas ou o entendimento religioso do menino Jesus para com a Divindade?
        RAMATÍS:- Em geral, todas as crianças hebréias temiam Jeová e bem cedo aprendiam a respeitá-lo e à sua Lei, certos de que ele espiava-lhes as traquinagens habilmente escondido atrás das nuvens. Nos dias tempestuosos, em que aas torrentes de água se despejavam dos céus, aas mães então predicavam aos filhos que Jeová estava zangado com os meninos desobedientes, e por isso atirava setas de fogo e raios incandescentes, partindo árvores e abrasando a Terra! Mas o menino Jesus arregalava os olhos sem qualquer temor, pois não podia admitir qualquer noção de castigo ou de ira por parte do Pai que estava no céu. Desprovido de má intenção e integro espiritualmente, sem ter jamais movido uma funda para ferir um animal feroz, ou inseto venenoso, no seu cérebro pequenino não havia guarida para a idéia severa que os rabis e profetas faziam de Jeová e seus anjos.
        José e Maria então desanimavam ante a infinidade de indagações que surgiam da parte de Jesus, ao tentarem convencê-lo das disposições belicosas de Jeová. Ele não temia o fragor dos trovões nem se assustava com a queda próxima do raio, porque reconhecia em tudo a obra do Senhor, que amava os seus filhos e jamais criara coisas para o sofrimento dos homens. Não podia conceber quaisquer perigos no seio da Vida, porque seu espírito sentia-se eterno e considerava a morte corporal um acontecimento de somenos importância. Sob o espanto dos companheiros e dos próprios adultos, quando a natureza se movia inquieta, o céu se escurecia com as nuvens pejadas de água e eletricidade, Jesus se rejubilava e batia palmas de contente. Inquieto, porém satisfeito, esperava a tempestade arrasadora; mas quando os raios fulminavam arvoredos e desenhavam na tela do céu serpentes de luz ameaçadoras, e a chuva caía forte, rompendo diques e inundando estradas, ninguém conseguia segurar o menino Jesus mais tempo sob o abrigo do lar.Rápido, ele escapulia e se punha longe, fora do alcance dos seus, a pular debaixo da chuva copiosa, cabelos escorridos e grudados nas faces, enquanto, como quem recebe um presente, aparava a linfa do céu na concha das mãos. Saltava, dentro das poças de lama e chapinhava na água, conseguindo, por vezes, atrair algum companheiro mais corajoso, que o acompanhava na sua festa aquática. Outros meninos, detrás das janelas rústicas, olhavam-no rindo do imprevisto do brinquedo, até que os irmãos mais velhos vinham buscá-lo de qualquer modo, mas não resistindo ao contágio das suas risadas gostosas.
        Às vezes sua silhueta recortava-se nítida sob a luz incandescente dos relâmpagos; então erguia os braços e cantarolava alegre, como se quisesse abraçar os relâmpagos e trazê-los em, feixe, para casa! Os coriscos caíam sobre o topo das colinas e lascavam a copa dos arvoredos; às vezes desciam pela encosta empedrada e desapareciam perfurando o solo. Os gritos jubilosos de Jesus confundiam-se com os brados de Tiago e Eleazar, seu tio e irmão, que o chamavam desesperadamente. Embora fosse motivo de crítica por parte dos vizinhos despeitados, era impagável aquele aspecto inusitado do menino Jesus, tão eufórico debaixo da água torrencial, assim como a ave feliz entreabre suas asas gozando a linfa criadora descida dos céus.
        Era um anjo destemeroso, certo de que a Natureza, mesmo enraivecida, não poderia fazer-lhe qualquer mal. Sabia que mediante aquela tempestade ruidosa de trovões e raios ameaçadores, o Espírito Arcangélico da Vida processava a limpeza da atmosfera, recompunha o plasma criador, carbonizava detritos perigosos, sensibilizava o campo magnético do duplo etérico da própria Terra e procedia à higiene fluídica no perispírito dos homens!
        Os seus contemporâneos não podiam comprender o desafogo espiritual do menino Jesus, diante da violência da Natureza pejada de água, raios e trovões, que amainava-lhe o potencial sidéreo atuante no seu cérebro tão frágil. Eram reações emotivas brotadas de uma alegria sã e inofensiva; um estado de espírito de absoluta confiança nos fenômenos grandiosos da própria Vida. Entregava-se à força desabrida da tormenta, buscando a compensação terapêutica psíquica, em que, sob a lei de que os “semelhantes curam os semelhantes”, o magnetismo eletrificado da atmosfera ajustava-lhe a mente superexcitada! O seu riso explodia cristalino na atmosfera densa e lavada pela chuva; até o coro dos batráquios e o pio triste das aves encharcadas pareciam participar do quadro surpreendente, em que ele era o tema fundamental. Indubitavelmente, todas as crianças sentem-se alegres e buscam a água como 

imperativo gostoso à sua própria natureza humana; no entanto, o menino Jesus exorbitava de toda e qualquer contemporização no caso, pois se entregava incondicionalmente à hostilidade da Natureza enfurecida, vendo nela uma vibrante manifestação da própria vida em sublime oferenda à Divindade!
        No entanto, essa extroversão da infância de Jesus, transformou-se, pouco a pouco, naquela silenciosa dor que o absorveu quando ele, na maturidade, se viu diante da maldade, da hipocrisia e do egoísmo humanos. Os pecados e os sofrimentos da humanidade pesavam-lhe no ombro e roubavam-lhe a alegria, porque sendo Jesus o mais sensível e amoroso dos homens, era quem mais sofria diante do seus irmãos desgraçados e sem esperanças!

O SUBLIME PEREGRINO DÉCIMA SÉTIMA PARTE

O SUBLIME PEREGRINO
DÉCIMA SÉTIMA PARTE

        PERGUNTA- Em face dessa ternura e natureza superior, Maria e José não se sentiram felizes de possuir tal filho agraciado por Deus?
        RAMATÍS:- Que poderíeis esperar do entendimento de um povo de pescadores e de campônios, cujo índice mais alto de cultura findava na obstinação, fanatismo e severidade dos rabis anacrônicos de Nazaré? Para José e sua família, o menino Jesus enchia-os de constantes preocupações.

        PERGUNTA:- Porventura Maria não guardava no imo de sua alma asa revelações de ter sido predestinada para dar à luz o Salvador dos homens? Ela não fora visitada algumas vezes por um Espírito radioso que lhe previu a sublime maternidade de seu filho Jesus?
        RAMATÍS:- O Alto já havia suspendido a freqüência das visões mediúnicas de Maria e dos seus familiares, a fim de evitar neles qualquer super excitação transcendental e inoportuna, que os viesse perturbar em sua vida cotidiana e até dificultar a vida do próprio menino Jesus. Aliás, diz velho provérbio oriental, que “na casa onde nasace um santo, toda a família só vive do seu encanto!”Era conveniente, então, a parentela de Jesus não se convencer prematuramente de que ele era realmente o Messias tão esperado.
        Aliás, a memória humana é fraca e esquece facilmente aquilo que o homem só percebe em profundidade no mundo espiritual. Maria, pouco a pouco, deixou-se convencer de que as revelações recebidas do seu anjo de guarda, em vésperas de esposar José e de nascer Jesus, talvez não passassem de visões próprias da sua imaginação exaltada da juventude. Ademais, seu filho desabrochava no mundo sem provocar qualquer fenômeno insólito além do seu caráter, que trazia muita gente em “suspense”! E também nada lhe fazia comprovar sua natureza altiva e própria de um profeta ou salvador de homens, um líder ou comandante capaz de derrotar os romanos e libertar o povo judeu! Embora severo contra a maldade, a tirania e o farisaísmo, noutro extremo era excessivamente místico, avesso à violência e fujão! E conforme a Lei Sideral, que disciplina o equilíbrio emotivo dos seres, justamente Maria, tão sensível e mística, privou-se de um contato transcendental para não exorbitar das obrigações fatigantes de seu lar, enquanto outras criaturas mais rudes do que ela se sentiam sacudidas pelo chamamento do mundo oculto!
        Depois de cessadas as suas visões mediúnicas, a vida de Maria e José ingressou no ritmo da existência prosaica das demais famílias judaicas, nada transparecendo de que eram realmente responsáveis pelo sublime esponsalício de um anjo com a carne humana. De modo algum podiam suspeitar que o menino Jesus tão difícil de enquadrar-se nos costumes da época e sem qualquer senso de propriedade pelos bens do mundo, poderia desempenhar missão tão elevada e difícil, como o Velho Testamento atribuía ao Messias, o Salvador dos homens!

        PERGUNTA:- Que podeis dizer mais claramente sobre esse “senso de propriedade” que não era próprio de Jesus?
        RAMATÍS:- Jesus aproximava-se da juventude com a mente experimentada de um adulto; e, o que era mais surpreendente: de um adulto sábio e santo!Em vez de criatura prática, metódica, formulando projetos para “vencer na vida”; um provável servidor na Sinagoga local;negociante dos entrepostos da Judéia ou mesmo herdeiro do oficio de José, ele se obstinava dia e noite, por um mundo fantasioso e consumia-se preocupado com a sorte alheia. Eram especulações transcendentais, sem sentido utilitarista; sonhava com um reino utópico onde aas feras vivessem em paz com os homens! Muitas vezes, José e Maria confabulavam já no leito de repouso corporal, sobre aquele filho que, altas horas da noite se mexia, inquieto e suspiroso, no seu beliche de palha trançada. E quando assim não acontecia, ei-lo, de olhos abertos, noite adentro, sentado na soleira da porta, fitando tristemente a lua farta de luz e elevando-se docemente atrás das nuvens. A brisa refrescante então lhe bulia nos cabelos soltos e mexia-lhe, de leve, com a camisola de menino pobre. Era um menino destituído de qualquer senso de propriedade dos bens do mundo; pois se verberava o companheiro que feria o pássaro com o bodoque de couro cru, ou se afligia seriamente diante do cordeiro pisoteado pelo moleque enraivecido, deixava seus brinquedos pelos caminhos, abandonava os apetrechos escolares aos demais meninos, e sem protesto ou desculpa doava suas sandálias e as porções de alimento a quem primeiro os solicitasse. Saltitava pelos campos, rolando encostas e só mais tarde, quando chamado ao acerto de contas com Maria, surpreendia-se das moedas que havia lançado de bolsa ajustada à camisola.
        Um velho mago da Fenícia e amigo de José, e que lhe devia relativo favor, mandara, de presente, ao menino Jesus valiosa ave-rei coroada de magnífico penacho cor de ouro e munificente plumagem purpurina, rendilhada de um azul sedoso e manchas opalinas, aprisionada em bela gaiola de grades banhadas a prata. José e Maria e os demais irmãos de Jesus deliciavam-se antecipadamente com a alegria e a surpresa que deveria dominá-lo ao retornar da escola e receber o régio presente. Porém, para surpresa dolorosa de todos e o confrangimento de verem a perda de coisa tão valiosa, eis que o menino Jesus, em sua falta de sendo dos bens do mundo, soltou a ave num gesto feliz e exclamação jubilosa. E riu tomado da mais ampla satisfação ao vê-la mover-se entontecida e alçar vôo majestoso sob o fundo azulíneo do céu ensolarado. Qual seria a futuro que a família de José poderia augurar para aquele menino tolo e despreendido, embora correto, bom e obediente, mas julgando a vida um espetáculo tão natural, como devem julgá-la os pássaros, os peixes e os animais? Evidentemente os seus contemporâneos também não podiam prever oculto ali naquele ser de maravilhosa espontaneidade e absoluta confiança na contextura da vida criada por Deus, o mestre que, mais tarde, assim recomendaria: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem fazem provimentos nos celeiros; e contudo vosso Pai celestial as sustenta. Porventura não sois vós muito mais que elas?” (Mateus, cap. VI, vs. 26 a 34).
       
         PERGUNTA:- Em face da tradição religiosa ter-nos transmitido até nossos dias a imagem de Jesus como um menino diligente, irrepreensível e obediente, é-nos um pouco difícil concebermos suas atrapalhações e os constrangimentos semeados por ele no seio da família! Que dizeis?
        RAMATÍS:- Os historiadores da vida do menino Jesus viram-se forçados a socorrerem-se da própria imaginação, a fim de suprirem as lacunas encontradas na suas existências em época tão recuada. A prova disso é que se consultardes as obras biográficas de homens de vulto, desaparecidos há apenas um ou dois séculos, encontrareis tantas dessemelhanças no relato de suas vidas, a ponto de deixar-vos em dúvida quanto à sua verdadeira realidade. Imaginai, portanto, a dificuldade de serem ajustados todos os pormenores e as minúcias da vida do Amado Mestre Jesus, que além de ter vivido há dois mil ano, em época de poucos registros biográficos, os arquivos que poderiam conter algo a seu respeito, ainda foram destruídos e incendiados quando da invasão de Tito em Jerusalém.
        Tratando-se de uma entidade que depois se glorificou pela sua própria morte sacrificial na cruz, cuja vida foi um hino de beleza e ternura em favor do gênero humano, é obvio que os seus biógrafos também pressuponham uma infância cordata, uma doçura e obediência perenes, em perfeita concordância com a fase adulta irrepreensível. Naturalmente esqueceram a sua luta interior entre o espírito avesso às convenções aos preconceitos tolos do mundo, e a sua indiferença à própria vida carnal, por se tratar de um anjo acima do temor da morte.
        Nazaré, como a miniatura da própria humanidade, era uma fonte de preconceitos próprios de seus camponeses e pescadores incultos, que viviam entre sofismas, intrigas e mistificações decorrentes de sua graduação espiritual rudimentar. Por isso, o menino Jesus, espírito completamente liberto do farisaísmo da época, incapaz de pactuar com a malícia, capciosidade ou mentira, revelava um padrão de vida que fatalmente punha em choque até os seus familiares, vizinhos e amigos. As suas perguntas e respostas inspiradas pela luz cristalina de sua alma angélica pairando acima das hipocrisias e convenções do mundo, rompiam as convenções tradicionais do homem comum. Qualquer artificialismo ou burla de última hora fazia-o desatar um rosário de indagações nevrálgicas que, às vezes, punham em pânico os adultos!
        Quando atingiu os doze anos tornou-se incômodo entre os rabis conservadores e apoucados da Sinagoga, pois insistia nas premissas inoportunas, que descobriam à luz do mundo a insânia e o absurdo dos dogmas religiosos da Lei de Moisés e das práticas devocionais excêntricas. Seria mais fácil congelar a luz do Sol do que acomodar o menino Jesus às iniqüidades do mundo, pois a sua natureza superior espiritual e intuição incomum opunham-se veementemente a qualquer contrafação da Verdade! À noite, junto da família, choviam-lhe conselhos incessantes, de seus pais e irmãos, que procuravam ensiná-lo a viver de modo a não turbar as relações humanas. Advertiam-no da imprudência de sua indagação muito antecipada sobre coisas que não eram práticas e só causavam confusão ou diminuíam os outros pela impossibilidade de uma solução satisfatória. Que precisava adaptar-se às circunstâncias do meio, agir cautelosamente, com habilidade e diplomacia entre os homens. Então o menino Jesus arregalava os olhos, surpreso, e na sua pureza cristalina indagava, altivo: “Por que devo agir assim? Por que devo esconder a minha sinceridade e alimentar a hipocrisia?
        José e Maria, espíritos benfeitores, mas emoldurados no cenário convencional de sua raça e seu povo, pressentindo por vezes a justeza do modo de agir de seu filho Jesus, que era certo no falar e digno no agir, mas impossibilitados de convencê-lo com os argumentos do próprio mundo onde viviam, então se contentavam em dizer-lhe, a guisa de solução: “Meu filho! Assim é o mundo, e nós não podemos reformá-lo!” E o menino Jesus, um palminho de gente, retirava-se para um canto silencioso e ali ficava a meditar nos seus equívocos cotidianos, confuso pelos motivos que lhe pareciam tão justos e nobres, mas lançavam a desconfiança no próximo.
        Porém vencida a etapa mais instintiva ou impulsiva da puberdade, ele mesmo reconheceu que RAM prematuras as suas indagações ou soluções incomuns diante do seu povo; recolheu-se mais fortemente ao âmago de sua própria alma e buscou ali os recurso de que precisava para reformar os homens, antes de verberar-lhes os pecados! No entanto, apesar de amainar a tempestade emotiva que o lançava corajosamente no oceano das indagações intermináveis; de guardar o silêncio onde poderia agastar; de aceitar as imposições do meio onde nascera, como a cota de sacrifício para o êxito de sua obra messiânica, ele jamais pôde fundir-se descoloridamente no rebanho da humanidade cobiçosa e insaciável. E por isso o mataram na cruz!

        PERGUNTA:- E que poderíamos saber do tipo de alimentação costumeira do menino Jesus e de sua família?
        RAMATÍS:- Conforme já temos noticiado, Jesus desde pequenino revelou profunda repugnância pela carne, e as vezes que o fizeram ingeri-la, ele sofreu violentos surtos de urticária e choques anafiláticos que produziram preocupações sérias. A família foi obrigada a evitar a carne em sua alimentação, pois isso produzia impactos mórbidos na tessitura delicadíssima do seu perispírito e desarmonizava-lhe o sistema endócrino pela perturbação química inesperada, resultando febre e fadiga hepática.
(NOTA DO MÉDIUM:- Aliás. Temos um membro de nossa família, hoje moço e absolutamente vegetariano, cujos ataques circulatórios que se manifestavam nele, quando criança, desapareceram assim que seus pais eliminaram a carne de sua alimentação, conforme conselho recebido de espíritos desencarnados.)
         Felizmente José e Maria seguiam os costumes dos terapeutas essênicos, em cuja alimentação predominava vegetais, frutas, cereais e o peixe, que era abundante. Só nas épocas de crises graves, na lavoura ou na pesca, é que eles recorriam à carne, mas assim mesmo o faziam de modo parcimonioso.
        Como bebida acessória os galileus usavam água pura; por vezes, leite de cabra, de camelo, ou então o vinho campestre, porém muito ácido. Eram exímios na produção de mel de figo, xaropes, caldos e sucos de frutas e vegetais escolhidos, que depois costumavam guardar em vasos de barro glausurado, no seio da terra, e revestidos de areia porosa, que sugava a umidade do subsolo e assim proporcionava uma refrigeração natural. Eram refrescos deliciosos, tradicionalmente servidos com pãezinhos de centeio, de trigo ou bolinhos de polvilho refinado e cozidos das sobras dos moinhos.
        A agricultura ou a lavoura, apesar de fornecer o essencial para o consumo das famílias, era precária, pois a abundância de peixes, que infestavam os lagos e os rios da Galiléia, tornava desinteressante qualquer mobilização de outros recurso diferentes da alimentação pródiga das pescarias. Os pescadores só procuravam a caça nos bosques e nas montanhas, quando já se achavam fartos do mar e do peixe. Assim mesmo, não hesitavam em substituir o alimento predileto por frutas e vegetais, que sabiam preparar sem lhes destruir o sabor natural e as propriedades nutritivas peculiares. Mas o peixe era o alimento principal e o preparavam de mil modos; fritavam-no principalmente no óleo de oliva e depois juntavam-no à sopa de cereais; ou então serviam-no com pães frescos de trigo, ao natural ou coberto com farinha dos moinhos depois de grelhados; secavam-no sob o calor do fogo ou do sol e sabiam transformá-lo em farinha para a reserva prudente, ou fabrico de deliciosos e odorantes bolinhos no azeite, que rescendiam a distância sob os temperos fortes da pimenta esmagada e algumas pitada de ervas odorantes, como o louro cheiroso. A alimentação dos nazarenos se completava com figos cozidos ou crus, tâmaras do Líbano, uvas secas, azeitonas em azeite, pão de trigo ou preto, com mel de figo ou de abelha. Em determinados dias da semana fazia-se uma espécie de manteiga com leite de cabra, que depois era servida com os tradicionais pães miúdos mistos de polvilho e trigo.
        O menino Jesus preferia os pãezinhos com mel de figo e de abelha, ou então os bolinhos de polvilho que ele gostava de misturar ao sumo da cereja, um refresco difícil e muito apreciado pelos hebreus, cuja fruta de polpa reduzida requeria a mistura do suco de outras frutas. Mas Jesus foi sempre frontalmente avesso aos alimentos carnívoros, embora recomendasse o uso do peixe; e mesmo na última ceia com os seus discípulos, ele expõe um dos mais significativos símbolos educativos da vida espiritual, quando, em vez de partir um naco de carne, apanha uma porção de pão e o vinho, e os oferece exclamando: “Eis a minha carne; eis o meu sangue!

JESUS E SUA INFÂNCIA (Continuação...)

Continuação.......
O SUBLIME PEREGRINO
DÉCIMA SEXTA PARTE

JESUS E SUA INFÂNCIA

PERGUNTA:- De acordo com as nossas próprias mensagens, em que o espírito sublime só atrai bons fluidos, como se explica a necessidade de tantos cuidados e proteções ao menino Jesus, quando ele era um anjo exilado na Terra?
RAMATÍS:- Dissestes muito bem: ”Jesus era um anjo exilado na terra”, isto é, um anjo fora dos seus domínios e submerso num escafandro de carne, que o reduzia em seu potencial angélico! Já citamos, alhures, o conceito popular de que “entre espinhos, o traje de seda do príncipe rasga mais facilmente do que a roupa de couro do aldeão”. Isso implica em considerarmos que tanto quanto mais delicado é o ser, mais ele também é afetado pelas hostilidaes próprias do meio onde vive. O beija flor sucumbe asfixiado quando é atirado no charco de lama, enquanto, a seu lado, o sapo canta de júbilo!
A criança lactente ainda nada pensa de mal, no entanto, é sensível aos maus fluidos da inveja ou do ciúme projetados sobre a sua organização tenra, os quais mais tarde são eliminados graças ao socorro dos benzimentos da velhinha experimentada. Aliás, ninguém se basta por si mesmo, nem o próprio Jesus, pois se a Vida é fruto da troca incessante do choque de energias criadoras atuando em seu plano correspondente, quando hostis elas ferem a qualquer espírito mergulhado na carne. A si mesmo só se basta Deus, que é o Pai, o Senhor da Vida! As relações entre todas as criaturas e seres, sejam virtuosos ou pecadores, significam ensejos de experimentação da própria Vida, que tanto educa os ignorantes como redime os pecadores!
Quando a Pedagogia Sideral adverte que o espírito sublime só atrai bons fluidos, e a alma delinqüente é a culpada pela carga nefasta que recepcionar sobre si mesma, nem por isso, os bons deixam de ser alvo dos malefícios da inveja, do ciúme ou da má-fé humana. Que é o anjo de guarda do agiológico católico, senão o símbolo da proteção espiritual superior e necessária a todas as criaturas benfeitoras? O pseudo Diabo da Mitologia, que compreende simbolicamente as falanges dos espíritos malignos, não se contenta em arrebanhar para o seu reino trevoso somente as almas pecaminosas; porém, conforme assegura a própria Bíblia, ele tudo faz para poluir os bons e chegou mesmo a tentar o próprio Jesus. (Vide Mateus, IV, VS. 1 a 11).
Não há dúvida de que os bons só atraem os bons fluidos e acima de tudo ainda merecem a companhia e a proteção dos bons espíritos, mas é conveniente meditarmos em que, nem por isso, estamos livres da agressividade dos espíritos maléficos, que não se conformam em sofrer qualquer derrota espiritual!

PERGUNTA:- Não se poderia deduzir que essa proteção extraordinária e poderosa sobre Jesus também deveria estender-se a todas as criaturas benfeitoras e assim lavrá-las definitivamente das investidas maléficas do mundo oculto?
RAMATÍS:- Sem dúvida; isso é racional e justo; porém, é essencial que tais criaturas façam por merecer essa proteção superior, assim como a merecia Jesus!

PERGUNTA:- Quais foram as emoções ou as reações mais comuns de Jesus, na sua meninice?
RAMATÍS:- Até aos sete anos, como acontece a quase todos os meninos na vida material, predominavam em Jesus os ascendentes biológicos herdados dos seus genitores. Em tal época, ele ainda agia impelido pelo instinto hereditário da ancestralidade carnal, enquanto o seu espírito despertava pouco a pouco, na carne, para então comandar o corpo emocional ou astralino, revelador oculto das emoções humanas. Fisicamente, Jesus era um menino corado, ágil e flexível, tal qual o junco verde que se agita sob a mais terna brisa; ele corria pelos campos, rolava pelas colinas misturando-se às cabriolas dos cordeiros e dos cabritos, que pareciam entendê-lo e gostar do seu riso farto e da sua índole meiga. Havia um halo de pureza e lealdade em tudo o que ele fazia; e muitas vezes, as criaturas envelhecidas no mundo, observando-lhe a agudeza mental, o sentimento superior e a simplicidade fraterna no brincar e viver, maneavam a cabeça agourando a má sorte para sua mãe apreensiva, quando diziam: “Menino assim não se cria; este nasceu antes da época!”
Jesus era divertido e espontâneo em suas travessuras; porém, sem humilhar sem maltratar os companheiros ou animais. Jamais urdia qualquer brincadeira maliciosa que pusesse alguém em confusão ou prejudicasse outros meninos; sincero, franco e justo, revelava-se inteiriço na sua estatura de alma benfeitora e amiga da humanidade! Educado com severidade por José, era tímido e temeroso diante dos pais, cuja obediência o tornava um bom menino. No entanto, desde muito cedo lavrava em sua alma a chama do mais puro amor e devoção ao Senhor! Inúmeras vezes era apanhado em atitudes extáticas numa adoração invisível, que deixava seus íntimos algo surpresos e até preocupados, pois era muito cedo para haver tamanha demonstração de fé e de ardor religioso por Jeová! Essas atitudes que seriam louváveis nos adultos, então se tornavam, motivos de censuras e até de ironias por parte dos seus familiares e amigos.
Ao completar sete anos os seus familiares ficaram apreensivos com ele, em face da estranha melancolia que o acometera, pois algo se revelara dentro de si e lhe roubava a plenitude comum de alegria. No entanto, era o período quem que o corpo astralino se ajustava ao organismo físico e se consolidava junto ao duplo etérico constituído pelo éter físico da Terra. Dali por diante, como acontece com todas as crianças depois dos sete anos, Jesus passava a contar com o seu veículo emocional”, e que o faria vibrar com mais intensidade no cenário do mundo e na responsabilidade na carne. Aliás, é de senso comum que as crianças são “inocentes” até os sete anos, porque a voz popular pressente que o espírito encarnado ainda não conta com o veículo emocional para expressar suas emoções sob o controle espiritual. Até essa idade domina apenas o instinto puro e os ancestrais hereditários, sem obedecer ao comando do Espírito.
Assim, conforme a própria lei do cientificismo cósmico, daquela idade em diante Jesus começava a consolidar mais fortemente a sua consciência humana, enquanto o seu Ego Sideral se punha em maiores relações com os fenômenos da matéria. O seu raciocínio desenvolvia-se rápido, mas as preocupações prematuras substituíam-lhe, pouco a pouco, a alegria espontânea por um halo de melancolia e tristeza. Embora menino, na se achava imbuído das inquietações e dos problemas próprios dos adultos, algo preocupado em solucionar as vicissitudes da humanidade tão confusa. A idéia mais prosaica sofria dele vigorosa análise de lhe provocava reflexões sérias, se nisso estava envolvida a ventura alheia. E os velhos rabis da Sinagoga então se punham a dizer, meneando a cabeça com ar censurável: “São idéias impróprias para um menino de sua idade!”

PERGUNTA:- Jesus cursou alguma escola comum ou fez estudos particulares?
RAMATÍS:- As possibilidades da família só permitiram a Jesus fazer singelo curso de alfabetização para adquirir o conhecimento primário sobre as coisas elementares. Deixou de estudar assim que aprendeu a ler e a contar os salmos e os longos recitativos no ambiente severo da Sinagoga de Nazaré, o que era mesmo comum aos meninos mais favorecidos pela oportunidade educativa.
Indubitavelmente, Jesus era uma criança de inteligência incomum para a época, pois os seus conceitos e aforismo de elevada ética espiritual, não só surpreendiam como até escandalizavam muitos adultos, que jamais podiam aquilatar a realidade do padrão de vida angélica aplicado entre os homens cobiçosos. O seu caráter impoluto fazia-o transbordar quando defendia conceitos de justiça, de desprendimento e dignidade, que chegavam a torná-lo estranho e confuso entre o seio do seu próprio povo. Ele despertava censuras aos próprios familiares, ou então sofria severas advertências dos mais velhos ou conselhos temerosos dos mais pudicos.
A sua força de libertação era assombrosa, pois sua alma não resitia muito tempo no trato demorado com as coisas prosaicas do mundo, malgrado ele dar subido valor a tudo o que era manifestação de vida, cujo gosto e interesse lhe delineou o roteiro futuro das maravilhosas parábolas hauridas na Natureza. Mas era incapaz de revelar a índole do relojoeiro, que pode operar horas e horas preso ano maniqueísmo de um relógio, ou então entregar-se à pertinácia do laboratorista, que extingue sua vida escravizada ao mundo invisível dos micróbios. Embora criança de 10 anos, Jesus visualizava todos os acontecimentos, as coisas e os ideais humanos de um modo panorâmico, pois o seu espírito recuava facilmente ao passado e projetava-se rapidamente no futuro. Surpreendia aquela gente pacata, simples e iletrada, que vivia prisioneira num círculo de preconceitos escravizantes e fanatizados à religião tradicional.
O menino Jesus sentia dificuldades para estudar à maneira dos alunos comuns, que aceitam e decoram, sem protestos, tudo o que lhes diz o mestre-escola. Custava-lhe absorver-se na nomenclatura convencional do mundo, quanto ao sistema primitivo de memorização maquinal. Assim, ele mal tomava contato com as lições áridas da escola hebraica, quase desatento aos símbolos das ciências terrenas, nos quais seu espírito ilimitado sentia-se embaraçado, como pequeninas teias que lhe cerceavam o vôo pelo Cosmo. No entanto, à simples observação de uma bolota, ele concebia o carvalho florescente e ante o fiapo de nuvem que passava célere pelo céu, não lhe era difícil antevê o fragor da tempestade.
Com o tempo, o próprio mestre-escola, habituou-se às fugas mentais do filho de José e Maria, cujo temperamento meigo, por vezes inquieto, casava perfeitamente o seu perfil angélico e prodigamente amoroso para com todos. Algumas vezes, ele despertava surpreso, como se fosse arrebatado das nuvens, sob a voz imperiosa do professor pedindo-lhe a lição do dia. No entanto, nenhum homem no mundo assimilou tão rapidamente tantos conceitos de filosofia, lendas, narrativas, parábolas e conhecimento do mundo, através da escola viva das relações humanas como o fez Jesus! Sua alma, de transparente sensibilidade, era um cadinho efervescente, em que de um punhado de vocábulos, sob a “química” do seu espírito, formava a síntese de lições eternas!

PERGUNTA:- Mediante vossas considerações sobre a infância de Jesus, pressupomos que em face do seu temperamento incomum aos demais meninos, ele significava um sério problema para José e Maria?
RAMATÍS:- Realmente, José e Maria eram paupérrimos e responsáveis por uma prole numerosa e estranhavam que Jeová, em vez de lhes enviar um filho de bom senso, prático e semelhante aos demais meninos, onerara-os com um belo garoto, de um fascínio e encanto especial, de uma agudeza e sinceridade chocantes, mas impróprio para a época e vivendo na infância a responsabilidade e os pensamentos de um adulto! Malgrado sua doçura, sentimento amoroso, pensamentos limpos e certa timidez, Jesus era uma “criança-problema”, quando incandescia na sua alma aquele estranho fulgor, que o tornava severo, desembaraçado e irredutível no seu senso de justiça tão incomum!
Os seus arrebatamentos e entusiasmos, que o levavam a beneficiar os outros com sérios prejuízos para si mesmo, a sua falta de utilitarismo e a inesgotável capacidade de trabalhar gratuitamente para qualquer pessoa, deixavam José e Maria confusos, pois só eram habituados à vida rotineira e sem contrastes importantes. Afora isso, o menino Jesus era frugal, simples e sempre esquecido do seu próprio bem.

PERGUNTA:- Afirma alguns escritores que Jesus era doentio desde a infância, e se fosse hoje examinado pela ciência médica seria considerado um nevrótico ou esquizotímico?
RAMATÍS:- Convém saber, antes de tudo, qual é a natureza do padrão científico preferido pela ciência médica do mundo para aferir qualquer enfermidade atribuída ao menino Jesus. A verdade é que nas tabelas da patogenia sideral, as enfermidades mais graves são justamente a vaidade, avareza, ira, crueldade, luxúria, hipocrisia, o orgulho, ciúme e os vícios que aniquilam o corpo carnal como o fumo, o álcool, os entorpecentes ou a glutonice carnívora! Desde que os sábios terrenos passem a considerar a hipersensibilidade, o amor, a renúncia espiritual próprias do menino Jesus, como incurso nas tabelas patológicas do mundo, é evidente que também terão de classificar o seu oposto, isto é, a “consciência satãnizada” como um padrão da verdadeira saúde do homem! A melancolia, a tristeza, o desassossego e aparentes contradições do menino Jesus não eram efeitos próprios de um caráter mórbido ou censurável, mas uma conseqüência natural do desajuste do seu espírito angélico, cuja vida era profundamente mental e o fazia sentir-se exilado no ambiente rude da matéria! As suas esquisitices e excentricidades eram provenientes da sua impossibilidade de acomodar-se ao meio terráqueo, como o faziam os seus contemporâneos adstritos aos problemas simplíssimos de digerir, procriar e cumprir as exigências fisiológicas do organismo humano. Não é demonstração de enfermidade a aflição das pombas debatendo-se no pântano viscoso, só porque ali os crocodilos se mostram eufóricos e tranqüilos!
Jesus não era enfermo psíquico, embora tivesse de refugiar-se amiúde no seio da mata ou das clareiras silenciosas, quando se sentia afogueado pela tensão do seu próprio espírito ou alvejado pelos fluidos perniciosos. Em verdade, havia profundo contraste entre o seu temperamento angélico de avançado entendimento moral, ao pôr-se em choque com os interesses mesquinhos, a vulgaridade, má fé e ignorância dos homens que lhe cumpria esclarecer e salvar!

PERGUNTA:- Conforme vossos dizeres, o menino Jesus também exigia uma vigilância constante dos seus anjos tutelares, em face de sua despreocupação pela vida humana. Quer dizer que ele dava sério trabalho aos seus protetores?
RAMATÍS:- Sem dúvida, a preciosidade de sua vida endereçada à mais importante missão de um anjo sobre a Terra, abrir clareiras de luz no seio das sombras terráqueas para a redenção do homem, movimentava todas as forças benfeitoras a fim de livrá-lo de uma desencarnação prematura ou acidente lesivo. A índole excessivamente contemplativa de Jesus induzia-o a procurar empreendimentos e atividades insólitas, que pudessem ajudá-lo a compensar as angústias e aas emoções de que sofria o seu espírito super ativo, pois, de conformidade com o velho aforismo iniciático, “o anjo não dorme”! Nos seus impulsos de libertação, ele penetrava a fundo nos bosques e nas furnas, surpreendendo até as feras nômades que o fitavam inquietas e sem coragem de agredi-lo, ante a refulgência da luz sideral que os seus guias projetavam no sentido de protegê-lo. Malgrado a advertência prudente do Alto, o menino Jesus expunha demasiadamente o seu corpo aos perigos do meio agressivo do mundo, enquanto se deixava ficar absorto, em sua meditação espiritual, horas dentro da noite.
Por diversas vezes, Maria o encontrou curvado sobre a serpente enrodilhada na moita de capim, ou então afagando o filhote da fera, a qual, em vez de ameaçadora, mostrava-se eufórica sob talo carinho. A serpente,cuja crendice diz que não morde a mulher gestante nem agride a mãe de bons propósitos, ou mesmo a leoa ciumenta dos filhos não se mostravam agressivas ante a presença daquele garoto transbordante de ternura por todos os seres! Assim como o lobo selvagem também se transforma em um cão dócil e inofensivo, quando o tratam com meiguice e desvelo, Jesus envolvia os animais ferozes e os répteis venenosos em sua aura de tanta meiguice e amor, que eles se quedavam tranqüilos.
Evidentemente, isso exigia a atenção constante dos seus amigos siderais e não poucas vezes a “voz oculta” de Gabriel advertiu-o para que não se expusesse tanto no cenário perigoso do mundo físico. Mas, quem poderia modificar a índole de um anjo que jamais temia a morte?

PERGUNTA:- Quais outros detalhes que ainda nos podeis oferecer sobre a vida do menino Jesus, pois tem sido tão contraditória a narrativa de sua infância?
RAMATÍS:- A fim de poderdes avaliar o verdadeiro temperamento, as virtudes e os contrastes do menino Jesus com os demais garotos de sua época, dar-vos-emos um quadro de algumas minúcias de sua vida, e que servirá para o mais claro entendimento de nova pergunta. Em resumo: era um menino que jamais guardava ressentimento de alguém, mostrando-se absolutamente imune às ofensas e aos insultos alheios. Imparcial e sincero em suas amizades, ele não diferenciava nenhum companheiro, por mais deserdado ou subversivo; não traia, não intrigava, não zombava nem humilhava. Ninguém o viu usar qualquer meio para ferir um pássaro, destruir um réptil, inseto ou batráquio! Curvava-se para o solo e colhia o verme repelente na folha do vegetal, pondo-o fora do alcance das pisaduras humanas. Sob o espanto dos próprios adultos, ele deliciava-se com os carreiros de formigas super carregadas de partículas de alimentos ou folhas tenras; com os retalhos de madeira da carpintaria de José, construía túneis para livrá-las de serem esmagadas pelas criaturas que ali cruzassem os caminhos. Muitas vezes, perdia longo tempo tentando repor no lombo das formigas a carga que lhe fora desalojada ou lhes trazia restos de cereais só para vê-las carregarem. Os meninos da vizinhança, rudes e daninhos, então contavam a seus pais as esquisitices do filho de Maria, provocando deles o conceito de que “esse menino não é bem certo da cabeça”.
Certas vezes, Maria e José mortificavam-se dolorosamente, ao encontrar Jesus conversando animadamente com as aves e os animais, que, em verdade, pareciam entendê-lo! Advertia, censurava e aconselhava patos, cães, marrecos, galinhas, cordeiros e cabritos, apontando-lhes as imprudências e os perigos do mundo! Enxotava-os para longe nos dias de matança, pois jamais alguém pôde matar qualquer ave ou animal na sua presença, cujo espetáculo doloroso o deixava febril e o fazia fugir do lugar! Qualquer ave ferida ou cão maltratado recebia dele o máximo carinho e tratamento; e um júbilo intenso, uma alegria sem limite tomava-lhe o roso radioso, quando os seus “doentes” se punham a voar ou a caminhar! Batia palmas satisfeito, de euforia espiritual, enquanto, às vezes, o sarcasmo dos perversos lhe feriam os ouvidos desapiedadamente. Curtiu noites de insônia, depois que viu, estarrecido, os bois tombarem um atrás do outro com a goela vomitando sangue e feridos mortalmente pela lança dos magarefes. Mesmo depois de adulto, ele custava a se dominar diante dos quadros lúgubres do templo de Jerusalém, onde os sacerdotes oficiavam a Jeová respingado pelo sangue dos animais e das aves inocentes!
Jamais podia compreender sua culpa, quando ouvia severas admoestações de José e os apelos insistentes de Maria, para que não arriscasse sua vida preciosa nos arvoredos envelhecidos, onde subia afoito, para proteger os ninhos perigosamente pensos nos galhos rotos! Mas eram inúteis tais censuras ou conselhos; em breve, tornavam a encontrá-lo novamente trepado nos galhos das árvores e entre os pássaros, que em vôos efusivos pareciam aliar-se ao seu riso cristalino, gratos pelo carinho dispensado aos filhotes implumes! Durante os brinquedos e folguedos cotidianos, qualquer perversidade cometida contra os seres inferiores deixava-o silencioso e severo. A censura no olhar era tão veemente, que os meninos mais culpados se afastavam temerosos.
        Em conseqüência, Jesus não era um menino mórbido, excêntrico ou propriamente rebelde; porém manifestava uma linha de conduta angélica prematura entre os demais seres, e por isso semeava constrangimentos nos hipócritas, atemorizava os cruéis, que o censuravam, zombando das suas comiserações pelos insetos, vermes ou répteis!